Agrotóxico? Basta leite e bicarbonato de sódio para combater as pragas

Abóbora sem agrotóxico: mais gostosa e mais saudável

Abóbora sem agrotóxico: mais gostosa e mais saudável

 

30 de janeiro, 2003
Às 2:47 PM hora de Brasília (1647 GMT)

BRASÍLIA (CNN) -- Que os agrotóxicos representam uma grande conquista da agricultura mundial ninguém duvida, uma vez que possibilitam o controle de pragas na lavoura. Mas, por outro lado, os defensivos agrícolas podem causar sérios danos à saúde humana e ao meio ambiente.

Mas quem disse que não é possível combater as pragas de um jeito mais natural? Em Minas Gerais, na cultura da moranga-híbrida, produtores estão usando o leite de vaca e o bicarbonato de sódio como defensivo.

Esses produtos de baixo custo e facilmente encontrados no mercado são capazes de combater a principal praga da moranga-híbrida, sem provocar distúrbios no meio ambiente e na saúde do homem.

A descoberta é resultado de um dos projetos do Programa Olericultura, da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), que conta com o apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig).

A moranga-híbrida Tetsukabuto é uma das olerícolas que mais cresceram em número de produtores, área plantada e produção nos últimos anos em Minas Gerais.

De alto valor nutritivo e comercial, a leguminosa é cultivada na região centro-oeste do estado, principalmente em Campo das Vertentes, e considerada prioritária no Programa de Olericultura.

Segundo a engenheira agrônoma e secretária-executiva do programa, Maria Helena Tabim Mascarenhas, existem poucos produtos químicos registrados no Ministério da Agricultura específicos para a cultura de moranga.

"No entanto", acrescentou, "há estimativas de que sejam aplicadas cerca de 34 toneladas de agrotóxicos nas plantações de moranga, em Minas Gerais, uma média de 14 quilos por hectare".

Os defensivos agrícolas, além de aumentarem os custos de produção, provocam impactos ambiental e social ainda maiores. Sua aplicação indiscriminada pode contaminar o aplicador, que muitas vezes trabalha sem a devida proteção, e também deixar resíduos nos frutos quando os períodos de carência são ignorados.

Os agrotóxicos podem contaminar, ainda, os lençóis freáticos e suas embalagens necessitam de uma destinação final cuidadosa.

Na cultura da moranga, grande parte desses defensivos é empregada no controle do oídio, uma das principais doenças das curcubitáceas (família das morangas).

A praga se caracteriza pelo aparecimento de manchas brancas nas folhas que limitam o processo de fotossíntese e, conseqüentemente, a qualidade e a produtividade das plantas.

Mas, depois de dois anos de trabalho e de uma série de testes, a equipe em Minas concluiu que o leite de vaca e o bicarbonato de sódio são fortes candidatos para a substituição dos agrotóxicos.

Sob a coordenação do agrônomo Valter Rodrigues de Oliveira, os pesquisadores avaliaram a eficiência não só do leite de vaca "in natura" e do bicarbonato de sódio, mas também do vinagre de vinho tinto e do extrato pirolenhoso, isoladamente ou em mistura, no controle do oídio.

Morangas foram submetidas a 16 tipos de tratamento

Morangas foram submetidas a 16 tipos de tratamento

 

Foram analisados 16 tratamentos diferentes para a doença da moranga: uma aplicação de água, chamada de testemunha, três doses de bicarbonato de sódio, três de vinagre, três de misturas dos dois últimos produtos, três doses de leite de vaca, um tratamento com o Bipirol (extrato pirolenhoso), um com enxofre e outro com fenarimol.

O enxofre e o fenarimol foram utilizados como padrão para comparação. Ambos são fungicidas registrados para o controle de curcubitáceas.

A freqüência da aplicação foi um dos fatores importantes na avaliação dos produtos. A pulverização do fenarimol foi feita de 14 em 14 dias e a das demais substâncias, a cada sete dias.

Em todos os casos, o tratamento foi iniciado imediatamente após o desenvolvimento completo da primeira folha da moranga. Durante o ciclo da cultura, 14 pulverizações foram aplicadas.

No entanto, a avaliação foi baseada na severidade da doença e na produtividade dos frutos comerciais.

Nos tratamentos com enxofre e fenarimol, o oídio apareceu no 43º dia após a semeadura. A doença progrediu por 40 dias, mas em uma intensidade muito baixa. Já nos demais tratamentos, a incidência de oídio ocorreu a partir do 33º dia após a semeadura. A intensidade também foi baixa e no caso do leite de vaca e do bicarbonato de sódio foi muito menor.

A maior produtividade dos frutos foi observada nos tratamentos com enxofre, com bicarbonato de sódio e com leite. Nos três casos, o índice foi superior a 16 toneladas por hectare. Os experimentos foram realizados em blocos e repetidos quatro vezes.

Segundo Maria Helena, "o diferencial do leite de vaca e do bicarbonato de sódio é o fato de não representarem risco para a saúde do homem, nem para o meio ambiente".

O trabalho foi apresentado aos agricultores da região em junho do ano passado. O engenheiro agrônomo José Maria da Silva, responsável pelo escritório de Cordisburgo da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater), disse que "muitos agricultores já adotaram o leite e o bicarbonato de sódio no controle de oídio, mas ainda não houve tempo para os primeiros resultados".

"Mas a expectativa é boa", concluiu, confiante nos resultados da pesquisa.

CNN   (Com informações da Agência Brasil)