HortiBrasil

O negócio de frutas e hortaliças frescas PDF Imprimir E-mail
Qui, 03 de Setembro de 2009 09:48

A cabeça de todo mundo sempre relaciona frutas e hortaliças frescas com o que é natural, com o que é saudável, com o que previne doenças, com o que é saboroso e tem frescor, com o que oferece diversidade ao paladar e aos olhos: muitos e diferentes produtos, cada qual com diversas variedades, em vários tamanhos, muitas cores, diferentes sabores e texturas, em diferentes embalagens, provenientes de variadas origens. Todos os dias surgem novas variedades, novas embalagens, novas maneiras de apresentação, resultado dos esforços para a diferenciação de um produto por seus produtores e pelas empresas do “antes da porteira”. As frutas e hortaliças são ainda sinônimos de facilidade de preparo e consumo (o “fast food” do tempo das cavernas), de sobrevivência digna para o pequeno e para o médio produtor, de fartura de empregos, de alimentação barata, de oportunidade de diferenciação no varejo, de sobrevivência do pequeno e do médio varejista, de margem alta para o varejo e de um número infinito de novos bons negócios.

O tamanho do negócio agrícola das frutas e hortaliças frescas surpreende quando o comparamos com as outras cadeias de base agrícola. Os dados do IBGE de 2006 mostram que o valor de produção das frutas e hortaliças (R$ 26 bilhões) é 26% do valor total da produção agrícola do Brasil, inferior apenas ao valor de produção dos cereais, leguminosas e oleaginosas. No Estado de São Paulo a participação das frutas e hortaliças (R$ 7 bilhões) no valor da produção agrícola sobe para 34%, inferior apenas ao valor da produção da cana de açúcar. O valor da produção por hectare, de R$ 8 a 10 mil por hectare e muito superior ao valor dos cereais, leguminosas e oleaginosas de R$ 1 mil por hectare, permite a sobrevivência digna dos pequenos produtores. Os dados do Instituto de Economia Agrícola do Estado de São Paulo mostram aumento do valor da produção das frutas e hortaliças frescas (não industrializada) no Estado de São Paulo de 2001 para 2005, de R$ 3 milhões para R$ 5 milhões, 16% da produção agrícola paulista nesse ano.

Com exceção de alguns produtos como a laranja, o caju, a goiaba, o tomate, os fruticultores e olericultores brasileiros produzem, basicamente, para o mercado in natura interno. Só 2% é exportada. Apesar disso, a exportação é um excelente instrumento de modernização: o produto tem que atender às exigências dos seus importadores, o que acaba tendo reflexos também na qualidade ofertada ao mercado interno.

O distanciamento entre o consumidor e a agricultura cresce com a urbanização e com o crescimento das grandes metrópoles. A grande maioria dos consumidores (menores de 40 anos de idade) nunca colheu um fruto do pé. A sua ignorância sobre as frutas e hortaliças frescas é absoluta. Não existe nem a nostalgia por um produto saboroso. A má qualidade das frutas e hortaliças, a dificuldade de acesso aos produtos de boa qualidade, a colheita de frutas imaturas, mais firmes para garantir maior tempo de prateleira, a competição com os produtos industrializados (mais confiáveis), a inexistência de apoio ao comprador, varejista e serviço de alimentação (como é feito com os produtos industrializados) estão entre as razões que levaram à diminuição do consumo domiciliar per capita. Os dados da Pesquisa de Orçamento Familiar – POF do IBGE mostram uma queda consistente do consumo de frutas e hortaliças frescas. O consumo per capita de frutas, que em 1987 foi 45,53 kg, em 1996 passou a 40,40 kg e em 2002 a 24,49 kg. O consumo domiciliar de frutas do brasileiro encolheu 46%, quando comparamos 1987 a 2002. O comportamento das hortaliças não foi diferente. Em 1987 o consumo per capita de hortaliças foi 47,98 kg, em 1996 passou a 34,42 kg e em 2002 a 29,00 kg. O consumo domiciliar de hortaliças encolheu 40%, quando comparamos 1987 e 2002. O consumo per capita total de alimentos no domicílio levantado pelo IBGE, passou por uma diminuição de 1987 para 1996 e voltou ao mesmo patamar em 2002: foi de 377 kg em 1987 para 340 kg em 1996 e voltou a 378 kg em 2002. A participação das frutas frescas no consumo total de alimentos caiu de 12% em 1987 para 6% em 2002 e a das hortaliças frescas caiu de 13% para 8%. Um grande desafio para os produtores, profissionais de saúde, varejistas e serviço de alimentação. A participação das frutas e hortaliças frescas na receita dos 19 mil supermercados brasileiros vem crescendo rapidamente e está em torno de 9%. O setor de FLV é o principal responsável pela escolha de um dado supermercado pelo consumidor. As frutas e hortaliças representam 19% do total do custo da indústria de refeições coletivas, atualmente responsável por 8,9 milhões de refeições por dia. São mais de 900 empresas, que consomem cerca de 150 mil toneladas de frutas e hortaliças frescas por ano.
A produção de frutas e hortaliças para o mercado in natura (frescas) é totalmente diferente da produção dos outros produtos agrícolas para a indústria. A indústria estabelece exigências de qualidade, prazos de entrega, volume e preço para a matéria-prima que vai receber. Pesquisa o mercado, desenvolve novos produtos e novas embalagens, promove campanhas de promoção, vende, faz promoções no local de venda, briga por espaço na gôndola, orienta o varejo na venda do seu produto, garante a qualidade e o fornecimento, mantém SOC, SAC, etc. É o elo coordenador da cadeia e o agricultor é o seu fornecedor de matéria prima.

Na cadeia de produção de frutas e hortaliças frescas, não existe elo coordenador. O produtor é pequeno e especializado. É o fabricante do produto, responsável por sua qualidade e segurança. A produção é fragmentada, sazonal. O produto é perecível, continua vivo depois de colhido, tem metabolismo intenso. Está pronto para o consumo no momento da sua colheita. A qualidade é feita na roça. Todos os esforços pós-colheita visam a preservação da qualidade do produto na colheita. Fruta boa e saborosa deve ser colhida madura, é mais macia, menos resistente a pancadas. Hortaliça boa e saborosa deve ser colhida tenra, perde água e frescor rapidamente e tem menor tempo de prateleira. O sucesso da pós-colheita exige articulação entre todos os elos da cadeia. Todos os esforços do produtor podem ser facilmente destruídos pelo manuseio errado na colheita e pós-colheita, em qualquer elo da cadeia.

A falta de elo coordenador da cadeia, associada à ausência de política pública para o setor, torna o processo de comercialização, um “salve-se quem puder”, o império da desconfiança. O produtor não confia no atacadista, que não confia no produtor. O varejista não confia no atacadista e o consumidor não confia no produto. A compra das frutas e hortaliças frescas é sempre um mistério para o consumidor.

O varejo e o serviço de alimentação precisam do mix de produtos todos os dias, um pouco de cada, fresco, bonito, saboroso, barato. Para garantir o abastecimento, os atacadistas do Entreposto Terminal de São Paulo compram de produtores de 1.496 municípios brasileiros e de 09 países. Possuem uma rede de compradores distribuídos por todo o Brasil e muitos deles financiam a produção ou uma parte dela. Por outro lado, um varejista bom comprador de manga compra 100 caixas de manga por semana, 3 vezes por semana, 200 kg de manga por compra. Ele verifica caixa por caixa antes de comprar. Um caminhão de 12 toneladas abastece 60 bons compradores de manga. Os pequenos varejos levam 1 ou 2 caixas por compra, 5 vezes por semana. É a logística do pequeno volume, do produto fresco perecível, da especialização na produção e do mix de produtos no consumo, onde a existência das Ceasas é absolutamente imprescindível.
A logística atual pode ser descrita por pancadas e trancos, pela carga e descarga caixa por caixa, à mão, pela não paletização nem mecanização da carga e descarga em todos os elos da cadeia de produção. A grande maioria das podridões das frutas e hortaliças frescas, principal razão das perdas, é causada por microorganismos oportunistas, que só penetram no produto através de ferimentos causados pelo manuseio na colheita e no pós-colheita. O esforço de melhoria da qualidade do produto e de modernização de um elo da cadeia é destruído pelo elo subseqüente. O esforço de melhoria se perde e é até punido, quando se considera o custo da melhoria.

Como fica claro pela análise das estatísticas sobre consumo, é a própria sobrevivência saudável do setor de produção e comércio de frutas e hortaliças que está em jogo. Neste mundo de competição crescente, essa sobrevivência exige a criação de instrumentos de modernização, implantados através da articulação de todos os elos da cadeia de produção, antes, dentro e depois da porteira e que garantam a premiação do bom produtor e um produto saboroso e seguro para o consumidor. Esse é o escopo do trabalho da HortiBrasil.

Última atualização ( Qui, 12 de Novembro de 2009 08:02 )
 
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